Diário de um Hacker #11: Quanto tempo!

Uma vez Hacker, sempre Hacker.

No final da última edição:

A famosa operação que está prendendo políticos e outras pessoas, está aí para provar o que estou falando. Assim como ela, o que faremos não acabará com os problemas, mas deixará uma ferida em todos.
Isso mostrará que ainda estamos aqui e que nunca nos calamos.
Você pode deter a mim, mas não todos nós, pois no final das contas somos todos um só.

Você é um(a) Hacker?

Na verdade nos calamos. Nos escondemos atrás de empregos. Nos escravizamos em prol de algo maior. Algo maior que não temos certeza que existe, mas que fica cutucando nosso cérebro, como uma chama que luta pra não se apagar. Aceitamos os problemas que ocorreram. E hoje… bem… Nos escondemos atrás de MÁSCARAS! É a máscara que nos protege e os outros também, mas a máscara que oculta a nossa identidade, que impede que um sistema (computacional ou não) nos identifique.

Camuflamos as nossas idéias de liberdade propositalmente e deixamos à mostra uma idéia de que somos aquilo que o sistema quer que sejamos: pilhas recarregáveis. Pilhas recarregáveis onde a nossa energia é recarregada antes que ela acabe. Essa nova carga ocorre quando recebemos notícias de que as coisas estão melhorando para todos nós, mas que não passam de informações fabricadas para nos dar a ilusão de que tudo está bem e assim possamos continuar. Continuar pagando impostos, sustentando um sistema que não nos retorna o que deveria ser de nosso direito. Pilhas recarregáveis.

Lembre-se do que falei no início do parágrafo anterior: “… deixamos a mostra uma idéia de que…”

É como dizia aquele filme: “…Por baixo desta máscara não há apenas carne. Há uma idéia. E idéias são à prova de bala…”

Essa idéia não morreu, mas esperamos um dia que ela se torne realidade.

Jaguariaíva-Pr, 21 de setembro de 2020

São 05:25 da manhã. Acordo assustado após um pesadelo conturbado. Carros explodindo, pessoas pegando fogo e sirenes da polícia. Sempre que tenho algum sonho ou pesadelo, referências ou imagens daquilo que presenciei em São Paulo insistem em aparecer.

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Precisei sumir de São Paulo. Cortar comunicações com todos da equipe. Esperar a poeira baixar. Como tenho saudades de Léia e Marcus. Como eles estão? Caramba meu, como passamos por muita coisa. Foram algumas aventuras e tanto. Sei que você deve estar curioso(a) pra saber que aconteceu com eles. Pois é, eu também estou.

Hoje estou morando na casa da minha mãe. Ela e nem ninguém daqui sabe da minha vida dupla que eu levava em São Paulo. Garçom durante o dia e hacker durante a noite. Mas nos últimos tempos eu já não estava mais nesse emprego. Era hacker full time.

E o que estou fazendo hoje? Bom.. primeiro preciso te esclarecer uma coisa: Meu nome na real é Ricardo. Case era meu nick, mas também meu nome “real” em sampa. Graças ao Apolo, que providenciou documentação com nome de gringo, pra ficar mais “da hora”. Antes de vir para o PR, raspei minha cabeça. E de lá pra cá adotei esse visual. Perdi peso consideravelmente, sendo praticamente impossível alguém de sampa me reconhecer.

Hoje tomo cuidado redobrado quando me conecto à Internet. Utilizo a distribuição Linux Tails, com foco em segurança e privacidade na minha vida online. Instalei o Tails no meu HD externo. Obviamente ele foi criptografado durante a instalação. Na distro, utilizo o Protonmail para mandar e receber e-mails, tudo com chave pública e privada.

Uso smartphone? Claro! Mas nada de WhatsApp, Telegram e afins… Acesse o site SURVEILLANCE SELF-DEFENSE (SSF), um projeto da EFF (Electronic Frontier Foundation),  para conhecer muitas dicas sobre como ter segurança e privacidade nas suas comunicações online. Ah, e meu Android está criptografado…

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Notícias

Todo dia ao levantar sigo um ritual. Confiro no Signal se Léia ou Marcus deixou alguma mensagem. Já fazem quase 3 anos que não tenho notícia deles. Nenhuma mensagem. Nada.

Como sempre, apenas me resta seguir minha vida. Hoje trabalho como Engenheiro de Segurança da Informação em uma empresa da cidade que atua no ramo de Papel e Celulose. Eles me pagam bem. Entrego o que precisam e recebo um generoso salário por isso.

Voltei a ter contato com meus velhos amigos da cidade: Rogerinho (vulgo Purguinha), Elizandro e Vinícius. Sempre relembramos nossos velhos tempo de hacking. Isso la em meados da década de 90. Eles sabem da minha vida dupla que eu levava em São Paulo. Mas nunca mais tocamos neste assunto.

Você engana-se caso pense que deixei de hackear. Uma vez hacker, sempre hacker!

O início do dia de hoje, como disse no início, acordo com aquele pesadelo. Sigo meu ritual, tomo café e vou para o computador. Ainda estamos no regime home-office, pois a pandemia ainda não acabou. Estou usando o notebook da empresa para trabalho e um outro note com o Tails instalado. 

Este foi mais um dia de trabalho como qualquer outro que tenho vivido. Reuniões, ligações, pentests, gestão de vulnerabilidades e mais reuniões.

Resolvo sair de casa pra tomar um ar. Coloco minha máscara e sigo pra rua. Paro na praça Getúlio Vargas e sento num banco. Fico olhando para as pessoas passeando por ali, outras saindo de um dos prédios da prefeitura no final do expediente, outras ainda dentro de seus carros indo para casa ou em algum bar tomar uma cerva. Vejo que meu celular se conectou automaticamente na rede wireless da prefeitura, disponibilizada para os cidadãos que ficam na praça e nas imediações. Coloco-o no bolso novamente e fico prestando atenção em uma moça que está vindo na minha direção. Está de blusa preta de manga cumprida e capuz na cabeça, calça jeans e tênis All Star cano baixo. Quem será ela? Não consigo identificá-la.

A figura estranha senta do meu lado e diz baixinho: — Você vai receber uma mensagem no seu celular em instantes.

De repente sinto o celular vibrando no bolso direito da minha calça. Tiro-o do meu bolso e digito um PIN para desbloquear a tela. Acessei automaticamente o Signal. Apareceu uma mensagem não lida de um número com DDD 11. PQP! Será?

Como assim? Penso…

Olho pra figura sentada do meu lado, já sem o capuz.

Um frio percorre todo meu corpo ao vê-la ali.

— Léia?

PS: Eu prometo que a próxima não vai demorar mais de 2 anos para ser liberada!!!!!!!!

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O Analista

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